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Para que serve um café?




Chegou frio à mesa. Reparem bem: não escrevi “morno” ou “gelado”, mas sim aquele estado broxante que faz os músculos do rosto se contraírem em triste recaída. Chocho, “borocoxô” e “meh” são palavras que ornam com tal feição. Não, o café não estava de todo ruim. Estava frio. Não deixava o interior do corpo quentinho, nem dava uma sensação de refrescância geladinha. Ficou no limbo. Entre nem um e nem outro, foi um primeiro gole desanimador.


O clima (seria tempo? Geógrafos, me corrijam.) também não estava favorável para sair de casa e, para completar, um dos pratos veio do jeito que não deveria vir. O cenário completo era: frio, chuva e todo aquele constrangimento envolvendo atendentes, gerente, pessoal da cozinha e a ideia sorrateira de que alguém vai ficar chateado com essa tensa negociação gastronômica.


Certamente, em outras cidades menos hostis em termos de atendimento, tal situação seria resolvida sem nenhum drama. Mas não estou aqui para falar de outras cidades. O que me importa agora é Brasília, que, para alguns, pode parecer tão fria quanto o cappuccino que pedimos. Lindo, mas frio.


Café Castanho - 108 Norte.
Café Castanho - 108 Norte.

Nem sempre uma cidade é o que gostaríamos que ela fosse, e o mesmo vale para cafeterias (e para quase tudo na vida). Colocamos grandes expectativas nos espaços que apresentam o poder de movimentar nossas emoções. Depositamos sentimentos altos e esperamos por retornos grandiosos que podem não chegar, gerando a famosa decepção. Decepicionar-se é muito humano.


Porém, se considerarmos a alma de uma cafeteria, podemos inseri-la em seu devido tempo e lugar, dotá-la de propósito, de serventia — ou seja, do poder de se fazer presente na vida real das pessoas. Mais do que agradar o paladar, um café pulsa na frequência cardíaca de uma cidade. Ao trilhar essa via da percepção, entendemos que a xícara sobre a mesa é apenas a ponta do iceberg (ou hotberg).


Um bom café não diz respeito apenas ao cardápio doce ou à preparação dos alimentos. Isso é uma parte elementar, porém não única. Às vezes, um café nos marca pela qualidade; em outras, por proporcionar encontros potentes.


Apesar do café frio, aquele café serviu ao propósito maior dos cafés: ser palco para a comunicação entre semelhantes dispostos a falar e ouvir — seja lá o que for — por algumas boas horas. Humanos que pararam suas vidas para estar com outros em torno de uma mesa. Olhando-se, vendo-se, encarando-se, reparando-se.


Foram vários os encontros que ocorreram naquele microcosmo de uma tarde chuvosa. Mesas compostas por amigas de longa data; casais em um primeiro date; sócios alinhando negócios; famílias celebrando pequenas conquistas. Pessoas diversas exercendo a atividade suprema do falar, sem pressa para o lá fora.


O falatório é coisa nossa. Debater horas e horas sobre o pino da rebimboca da parafuseta faz parte da alma humana. Ceifar ou favorecer tal prática é uma escolha cultural. Criar um espaço favorável para falar de qualquer coisa por um bom tempo já é, em si, uma grande serventia social. Uma boa cafeteria é, portanto, um desses espaços que promovem a força curativa da comunicação humana. A fala salva.


No café Castanho, na 108 Norte, o cappuccino veio frio, mas a alma da cidade — habitada no coração de quem vive nela, encontrando-se com outros — pode aquecer as mesas daquele lugar. As cadeiras confortáveis e o espaço arejado fizeram muitas pessoas que chegaram cedo irem embora não porque queriam, mas porque os funcionários já guardavam as cadeiras para fechar o estabelecimento. Foi possível ver algumas continuarem suas conversas em pé, nas calçadas próximas ao local, mesmo com alguns pingos de chuva remanescentes.


As avenidas largas, as poucas pessoas visíveis e os carros velozes que atravessam as asas de Brasília podem desfavorecer as condições físicas das longas comunicações. Brasília pode parecer ter sido servida fria, mas a alma da cidade ganha cor nesses pequenos espaços em que o bruto do concreto se une ao calor dos corações.


Brasília não é apenas uma cidade.    

Um café não é apenas um líquido numa xícara.

 
 
 

1 comentário


pires.samantha
16 de jan.

Crítica poética , amei!! Brasília e suas singularidades ❤️

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