Por quem nos queimamos
- Giovanna Olinda
- 22 de jan.
- 3 min de leitura
A expressão “colocar a mão no fogo” trilhou um longo caminho até a noção atual de que algo ou alguém é tão confiável que arriscamos a própria mão por isso.
Nos primórdios das significações, essa frase envolvia uma espécie particular de tortura: uma prática em que o acusado tinha partes do corpo submetidas às chamas e, se não se queimasse — ou apresentasse apenas queimaduras leves —, era considerado inocentado, uma vez que Deus o havia protegido do fogo que tudo queima.
Ou seja, não é a mão humana que diz sobre a confiança em alguém perante o fogo, mas a instância divina que livra a mão colocada injustamente ao calor torturante. Não sei muito bem em quais esquinas essa expressão se perdeu, nem se Deus colocaria a mão no fogo por alguém hoje em dia.
O que posso dizer, nesta singela crônica com cheiro de café e julgamento (medieval isso de julgar, né?), é que euzinha coloco minha mão tatuada no fogo pelo Civitá Café.

Quando um lugar se garante no que faz, percebemos isso pelas escolhas mais simples: os quadros no banheiro, a água da casa servida sem constrangimentos, o cheiro de café sendo ensacado na hora, o sorriso gentil e prestativo — não apenas dos funcionários, mas também de quem frequenta o espaço. Um código sutil que revela a afeição por estar ali, por ter encontrado um tesouro coletivo. Olhares que dizem: “também colocamos nossa mão no fogo e ela não queimou”. Ao contrário: a mão segurou o quente e ingeriu o abraço acalentado.
Não precisamos recorrer apenas às torturas medievais para afirmar a qualidade das coisas. Caso queira saber se um café é de extrema qualidade, não são necessários cursos caros nem paladar refinado (perdão, baristas). O teste é simples: deixe esfriar. Esqueça a xícara na mesa enquanto lê algumas páginas, responde e-mails, conversa olhando no olho de alguém, escreve algumas palavras ou rabisca um bloco de papel. Depois desses minutos distraídos, beba o café, já resfriado pelo tempo. Se fizer careta, o café é ruim — e você só conseguiu tomá-lo porque estava quente. O calor engana. Se, mesmo frio, o café continuar bom, parabéns para quem o fez.

No Civitá, essa provação aconteceu. Enquanto eu tropeçava nos astros distraída (e um pouco desastrada), o café esfriou. Quando tomei, ainda senti bons aromas e o paladar fez festa, mesmo frio. Alegria gustativa. Se apenas o líquido fosse bom, certamente eu rasgaria menos elogios (de onde será que vem essa expressão? Alguma tortura com sedas rasgadas?), mas tudo o que provei ali estava excelente.


O sanduíche com queijo é “uma coisa”. Parece que vai ser difícil de comer, mas, na primeira mordida, as misturas de sabores e texturas fazem pensar: “como fiquei tanto tempo sem isso?”. A qualidade dos ingredientes é notável. A preparação pode até demorar um pouco, mas é amplamente compensada nas primeiras mordidas. Os doces são doces na medida, e o bolo-pão-de-cuscuz-com-coco, no meu coração, merece estrela Michelin.

Em resumo: ir ao Civitá é uma aposta segura de que se sairá feliz e sem a mão queimada.Mas, atenção: este não é um café para ir com pressa. O que se oferece ali são possibilidades de appreciation time. Se for, vá em paz. Peça seu café e respire. Olhe ao redor. Observe as árvores. Sorria com os olhos para algum desconhecido. Afinal, você não está na inquisição e pode aproveitar um mundo cheio de pequenos deleites em meio ao caos tipicamente humano.
Que o fogo não queime nossas peles, mas continue aquecendo as águas para passarmos excelentes cafés.





Amo ler suas crônicas …várias vezes !