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Do Sublime ao Real

No Shopping Iguatemi existe uma joia rara.


Não, não são as bolsas luxuosas nem os relógios das vitrines.

No segundo andar, encontra-se uma peça inigualável da confeitaria: excelentes doces. Para quem, assim como eu, é um pouco formiguinha, sabe o valor inestimável que um docinho tem na vida.


Nem sempre, porém, os lugares conseguem sair dos sabores excessivamente açucarados, nutellados ou pistachiados. E eu preciso dizer, que como qulquer outro entorpecente, o açúcar ilude. Mas, o verdadeiro doce pacifica. Doce é doce; açúcar é açúcar.


No outro extremo desse doce mundo, há espaços requintados que oferecem opções rebuscadas, mas sem o conforto que a tradição da doçura carrega: sabores que movimentam o paladar, mas não o coração.


Um bom doce, está nesse meio-termo. É como um abraço longo, em silêncio. Aconchega, sem incomodar. Nem todo abraço tem esse conforto, nem todo doce é um bom doce.


O dulçor é o calcanhar de Aquiles do mundo gourmet. São raros os locais que conseguem unir o suprassumo do sabor à deliciosidade acolhedora de um “docin”. Mas, no meio do shopping, tinha uma Pâtisserie Juliana Ingles, um oasis da doçura.



Pâtisserie Juliana Ingles - Shopping Iguatemi.
Pâtisserie Juliana Ingles - Shopping Iguatemi.

Cada peça (sim, ali o doce é arte) carrega a união entre sabores, texturas e estéticas surpreendentes, delicadas e, ao mesmo tempo, marcantes, com o aconchego que só a boa confeitaria oferece. O doce da Juliana é um doce que “sobe”.


Há comidas que são conforto: fazem carinho na barriga, trazem a sensação de que tudo está bem, e pode, por vezes, evocar memórias da infância.


Outras são sentidas na cabeça: despertam o paladar, exigem atenção, são comidas feitas para serem degustadas com calma e observação às papilas gustativas.


E, por fim (nesse métrica totalmente baseada em institutos de pesquisas da minha cabeça), há aquelas comidas que ultrapassam o corpo.

São alimentos que não ficam na barriga, nem apenas no gosto.

Elas deslocam.

Algo muda na primeira colherada: você não está mais ali.

Elevou-se. Subiu.

A rosa da Juliana sobe.


Nos dias em que se quer elevar-se, ser mimada, sentir-se especial: recomendo uma rosa dessa confeitaria. Poder comer devagar, junto de um café, deixando o doce-amargo redesenhar os contornos do momento.

Fechar os olhos na primeira garfada e permitir que a memória conduza a travessia pelos próximos instantes.




Mas, nem tudo são flores e essa elevação esbarra nas estradas do real.


Ir ao shopping já impõe um primeiro desafio. O atendimento, pouco acolhedor, quebra a suspensão do instante. Pequenos descuidos: um café errado, uma resposta atravessada, puxam o corpo de volta quando tudo o que se queria era permanecer em suspensão.


A sensação que fica é a de que é preciso atravessar obstáculos demais para alcançar algo que deveria ser simples: uma pausa.


Quando buscamos essas pequenas regalias da vida coletiva, não queremos passar pelos espinhos, queremos apenas a macies das pétalas.

Queremos repouso.



lascas de realidade
lascas de realidade


Na tarde em que visitei a Pâtisserie Juliana Ingles, senti esse dilema humano na pele e na xícara: a alma pronta para subir, enquanto o real insistia em aterrissar.


Soube depois que a chef inaugurou um espaço próprio.

Quem sabe lá seja possível degustar sua arte com menos espinhos, em um mar de rosas onde possamos apenas mergulhar no sublime.

Mas, isso são cenas do próximo Plano.

 
 
 

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