QUANTO CAFÉ: suco de laranja (ou o bagaço dela)
- há 4 dias
- 3 min de leitura
Nem tudo é sobre café (infelizmente).

Não sei para vocês, mas este ano está uma loucurinha. A vida está atropelando sem dó e, infelizmente, tomar um cafezinho superfaturado não tem sido uma prioridade. Aquela famosa (e merecida) pausa está sendo postergada, e o corpo se encontra em completo desespero com a falta que a pausa faz.
Enquanto o pensamento, de um lado, diz: “só mais um pouquinho”, o corpo, do outro, afirma com veemência: “você VAI parar”.

Parei, obrigada pelo meu próprio corpo. Para amenizar a imagem que vai surgir na cabeça de vocês, digamos que minhas peças internas apresentaram pequenas falhas, mas com grandes consequências e (por três longos dias) fiquei só o bagaço.
O próprio Nietzsche já falou sobre isso e afirmou que nenhum intelecto é páreo para uma dor de barriga. A cabeça cria a elevação racional e o corpo nos lembra que somos animais.
Mas, foi justamente por meio desse suprassumo de humilhação corporal que pude ficar em casa e, demoradamente, descansar. E, no meio do descanso (sempre tem algo no meio de alguma coisa), havia amigos.
Existe um momento canônico na vida adulta: quando você para de fazer amizades. O desgaste de socializar com profundidade para manter vínculos é grande demais, a conta não fecha.
Adultos têm conhecidos, colegas de trabalho, mas amigos-amigos-mesmo são apenas aqueles feitos quando ainda tínhamos energia para tal empreitada.
Ao contrário, a manutenção da real amizade é baixíssima e o vínculo é tão forte que consegue sustentar as inúmeras ausências dessas relações.
E quando essas (poucas e boas) pessoas dizem: “vamos nos ver”, ah, meus queridos, não há dor que impeça isso. Vai com dor mesmo. Se a racionalidade se submete ao animalesco, prevalece a força da amizade perante tudo isso.

Já que parar de fazer amizades é um evento, encontrar seus amigos é um festival. Mesmo que seja na pausa do almoço, entre uma reunião e outra. Ainda que, naquela janela entre o mestrado e o pilates. Mesmo que você não esteja bem para isso.

Encontrar-se com amigos é restabelecer o contato consigo, aquele pedaço de “eu” que ficou guardado com outras pessoas. Um pouquinho de você que se alegra com a volta a si por meio do outro.
Por isso, quando a vida gira na roda do caos, o remédio mais indicado são doses cavalares de amizade. Ela, por si só, não vai te salvar. Como um remédio, alivia, distrai os sintomas, inebria as dores, para que seu corpo, fortalecido, consiga voltar a lutar com pleno pulmão (ou intestino).
Dentre as relações mais sagradas, a amizade é, sem dúvida, a mais divina.
Uma família sem amizade ainda é uma família, mas uma amizade sem amigos é um vazio relacional.
Vocês perceberam que não falei de café, né? Eu avisei. Esta crônica é sobre o que deu para ser. Às vezes a vida entrega uma linda cafeteria logo abaixo do seu novo lar; às vezes, ela te entrega o bagaço do limão e te pede para fazer uma torta com isso. Peça emprestado o resto dos ingredientes, mas faça a torta, como der.

Nem sempre é sobre café, nem sempre é sobre o ideal, porque, no caos, na dor e na doença, ficamos expostos à nossa extrema humanidade. Somos demasiado humanos e precisamos, como todo bom humano, de afeto e ótimas companhias antes de qualquer torra média gourmet.
Para não dizer que não falei do café: meus queridos amigos pediram suco de laranja para combinar com o prato de frango. Pedi cuscuz com ovo, e estava impecável: leve, muito saboroso (e não fez mal algum para meu intestino sensível).

O empratamento estava lindo, a louça, ergonômica e o atendimento foi impecável. As opções de doces são lindas e saborosas. O café (líquido) é caro, mas deve valer a pena. Voltarei, com certeza, espero eu que em melhores condições, mas ainda em excelente companhia.



Comentários